segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Um buraco

Não quero escrever uma crônica mulherzinha. Nem um parágrafo de mulher incompreendida. Muito menos um desafabo de blog cor de rosa com cheiro de morango. Não é nada disso.Não vou culpar minha vó, que nem queimou sutiã, por meus problemas contemporâneos, se é que são problemas (seriam verdades?).Também não vou dizer onde quero chegar ou de onde saí. A questão não é o que temos e o que queremos ter. Ou o que deixamos de querer. O contrassenso* cava o buraco.


...Continua. Ou não.


*De acordo com a ABL, estranho assim, com dois esses.


terça-feira, 19 de outubro de 2010

Obrigada por ter me abandonado nesse dia, rinite

Começar um texto dizendo que eu estava atrasada é um retrocesso, uma redundância, pra não dizer coisa pior. Eu vivo atrasada, pra minha sorte ou azar. Mas o fato é que eu estava mesmo saindo atrasada do banho para um compromisso que já não lembro qual é.

Arranquei a toalha rosa do box, me sequei voando e joguei a mão no desodorante que fez um psiiiii desanimado.

Vazio.

Sim, a Lei de Murphy é algo super presente na minha vida.

Pois lá fui eu tentar encontrar um desodorante novo na minha costumeira bagunça, vulgo balcão da pia. No meio duma sacola amarela de freeshop, estava ele. Arranquei-o feliz do submundo da desordem e puxei a tampa.

O tsiiiiiiiiill saiu com força da lata branca e junto dele veio o bairro gótico e um prato de tapas. Callamares bem sequinhas, por favor. Uma taça de sangría e um monte de amigos heteronacionais. Senti o sono que movia minhas pálpebras na melhor aula de espanhol sob o sorriso de Sarah, a professora. E então eu jogava volei em Barceloneta e eram mais de dez horas da noite. Veio o zunido do metrô e meu quarto pequeno com travesseiro alto. A lomba para chegar até em casa, o calor e uma sensação inédita. Barcelona era inédita para mim e eu pra ela. E nós nos amávamos assim. Todos os dias. Até o dia que revivi tudo em dois minutos dentro do meu banheiro porto-alegrense.

Saborear o aroma do desodorante que eu usava na Catalunya só perde para o borbulhar do arroz com banha da minha vó.

domingo, 17 de outubro de 2010

Devaneio - Gisele

Em um boteco entranhado no bairro Gótico, uma brasileira e americana dividem a mesma mesa.

Enquanto eu admirava meu bocadillo salivando, Elisabeth me encarou séria.

-Mariana?

-Que?

Chegaram as patatas bravas. Largo o bocadillo e espeto uma como um apaixonado que encontra a amada.

- A Gisele tá mesmo grávida?

Adoro esse sabor quente e picante escorregando pela minha garganta.

- Que tu disse mesmo Elisabeth? – já mirando outra.

- Se a Gisele tá grávida.

-Gisele? - franzo o cenho.

Meu cérebro deu uma, duas, três voltas. Devo estar anêmica por culpa da ausência de proteína bovina, só pode.

- Bündchen, Mar-i-ana. Ela tá grávida?

Socorro, senhor. Me proteja dessas cabeças americanas.

- Ih, Elisabeth. Ela tá mais perto de ti que de mim, hein, pode ter certeza. Não faço a mínima ideia.

Aos bocadillos, por favor.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

O maior dos devaneios

Sobre “A gente é feito pra acabar”, o show do Marcelo Jeneci

A melhor definição deve ser dizer apenas que perdi a voz. Esqueci das palavras. Emudeci. E quem me conhece sabe que eu falo, e muito. Não sei se fui arrebatada ou levei uma porrada. Talvez seja algo semelhante a um grande porre. Ainda estou embriagada. Gosto disso, preciso disso. Cada melodia era uma gota de álcool e eu queria mais. Exigia, sugava, chorava. Tal qual uma álcoolatra. Sem culpa. Ainda assim tremia, arrepiava, nadava na bebida. Paz e medo. Desejo e repulsa. Sonho, tristeza, a vida real. Tudo assim, no mesmo copo. Que garçom malcriado. Atirou tudo na mesa sem pedir licença. Será que suporto? Sou forte assim? Sei não. Outra maré. Melodia, melancolia e, então, a felicidade. O sangue corria de outra forma. Lento, lustroso, como bem entendia, naquele mar infinito. Ainda duvido do encaixe. Não sei se eu tinha espaço para tanto. Não sei ser álcoolatra. Mas para que mesmo espaço? A gente é feito pra acabar.


segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Devaneio - O cara perfeito

O cara perfeito

Em que lugar excêntrico andava minha cabeça, como se ela pousasse por muito tempo no corriqueiro, quando acreditei ser prudente estudar pensadores. Pensadores econômicos. Pessoas que deviam sonhar com cifras e acordar com percentagens na cabeça. Por que razão imaginei que eu, Mariana, aquela comprida, deveria ter uma professora cujo maior ídolo se chama Ricardo. Se fosse o Paulo Ricardo seria até mais interessante. Ele usa jaqueta de couro e tem passe livre no Big Brother. Mas, não. O ídolo da professora loira que tem problemas nas cordas vocais, tadinha, é o David Ricardo.

Não, não tentei fazer uma frase de efeito. Dizer que o ídolo da vida de uma pessoa é o David Ricardo não faz uouu, eu sei. Se fosse o Capitão Nascimento ou o Victor & Léo (uma dupla = uma pessoa) valeria mais. Ninguém sabe quem é David Ricaaaaardo. E quem sabe quem é não imagina o economista escocês como norteador dos sonhos de ninguém.

Mas ele permeia os sonhos dela.

Tanto que ela repete efusivamente isso em toda aula. Inclusive antes, no meio e durante a chamada. Por que raios estava eu naquele auditório? Onde já se viu estudar agápé. Sim, agápé é como se chama História do Pensamento Econômico no prédio da economia. Simples, H-P-E ou agápé, mais uma pra lista infinita de créditos necessários para se vestir uma toga. Maldita hora. Maldita cadeira. Malditos pensadores. Maldito ordenamento. Malditos porquês. Maldita chamada. Malditos homens...

- Pedro Perfeito.

Zupt, ergui a cabeça e virei para o colega do lado. Precisava me certificar. Num lugar onde o Ricaaaaardo é ídolo e a Teoria das Nações (oi?) é leitura de férias, tudo pode acontecer. Mas o menino loiro assentiu com a cabeça e cochichou: ele não veio hoje.

Deus é pai e é lindo ver uma quase-jornalista encontrando um porquê. Bendita seja a hora em que o insano desejo jornalístico de encontrar razões para tudo e todos foi concebido e entrei naquele auditório.

P-E-R-F-E-I-T-O, Pedro.

Quem foi mesmo que disse que jamais mudaria de nome quando casasse?

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Devaneio - Medo e pânico

Medo e pânico

Não, não é pânico de assalto. Também não é medo de não conseguir pagar as contas no final do mês ou de não vencer a roda-viva das tarefas. Não tenho receio de viver. Não acho que cidade grande assusta. Não tenho medo de pequenez também.
Mas ando repetindo tanto que, as vezes, até me incomodo:
- Medo e pânico.
Tem gente que me faz grilar meus olhos estreitos. Medo de gente e pânico de suas ações.
Não, não sou misântropa.
Tenho uma leva de queridos naquela lista que entra dentro do peito.
Por isso mesmo me apavoro com quem, por ventura, não recebeu amor, carinho ou luzes.
Nas palavras do seu Alfredo, gosto do que clareia, de gente que faz enxergar em frente. O contrário, é um problema:
- Poucas luzes, Mari.
É, medo e pânico disso aí.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Devaneio - Hassen, as leis brasileiras e a Copa

Quem ler até o final compreenderá o porquê do "devaneio", garanto.


Devaneio - Hassen, as leis brasileiras e a Copa

Eu parecia navegar em uma jarra de sangria gelada, quando Sarah, a prima-irmã da Penélope Cruz, sorriu:

- Mariana, como és en Brasil?

Saí do Bairro Gótico em meio segundo e aterrissei. No final da aula, sempre líamos um artigo de ‘un periódico’ para debater.

Aquele dia o tema era aborto.

Depois de Hassen, o parisiense lindo e casado (!!!) de 26 anos, e da menina escocesa que estudava russo falarem, era minha vez.

Pensei, pensei e pensei. Sabia que eles não iam entender e decidi explicar igual, em portunhol.

- No si puede hacer un aborto, el gobierno no permite. Pero, és normal las mujeres abortaren en clinicas clandestinas. Algunas no pueden tener hijos después. Otras tenen problemas en utero. Toda la gente sabe que és prohibido, pero mucha gente hace.

Fiquei vermelha. Não sei se porque senti que todos me olhavam ou por vergonha mesmo. Hassen, ao meu lado, não resistiu. E eu sabia que não resistiria. Ele era o cara que fazia relações internacionais entre Paris e Madrid e desejava trabalhar na ONU.

- Si mutcha gente hace, entonces por que és prohibido?

Não sei Hassen. E queria saber. Tenho vergonha de te dizer com todas as letras que é proibido, as pessoas fazem e isso não muda nada. Nem deve mudar. Mas o lugar onde eu moro não é aquele do City of God nem o do Rio de Ránero. Há muito mais e, como una buena periodista, vou te dizer. Tem muita coisa no Brasil que é proibido e todo mundo faz. A gente costuma dizer que, certas coisas, não saem do papel. E sei que não há lógica nenhuma nisso.

- No hay sentido, Mariana?

O melhor espanhol que já ouvi – com sotaque francês – foi como uma agulha no meu ouvido.

- No, no hay.

Não satisfeita, no decorrer do curso, a nossa Penélope ainda propôs discussões sobre compra de remédios, educação/vestibular e salários mínimos. E, aviso, eu não detive minha sinceridade em nenhum momento.

Suas bolitas morenas estagnaram quando contei que na minha cidade eu podia comprar remédios sem receita e, tchan-tchan, por telefone.


Bom, enquanto grande parte do que acontece no Brasil não é, de verdade, obrigatório, surge uma luz. Ou um escuro.

No país do não pode, mas pode tudo passa, há uma só lei:

- Em jogo do Brasil na Copa do Mundo de Futebol ninguém pode trabalhar.

Muito menos ir à aula.

E, AI(!!), de quem ousar pensar em burlá-la.

Se for empregador, é desumano.

Se for empregado, não tem amor pelo país.

Se for professor. Ah, aí que o Brasil não tem mais jeito mesmo.

E foi assim que muita gente não trabalhou semana passada pra ver os amarelinhos correrem de luva em Joanesburgo.

Que fúria verde e amarela!

E, também foi assim, que decidi criar uma regra própria.

Não gosto de futebol e trabalho na Copa numa boa. Até na final.

Os gols eles repetem zilhões de vezes depois que acaba o jogo, comentam em detalhes e anos mais tarde tudo ainda vira um documentário pro meu irmão re-re-re-rever! Por que raios preciso assistir no momento exato?

Quero a minha dispensa pra ir na FLIP, a festa literária de Paraty no Rio de Janeiro.

A folga acadêmica pode ser para eu terminar meu Bauman ou minha nova edição do João do Rio. Também aceito não trabalhar nos dias do show do Los Hermanos na Bahia ou quando abrir uma exposição nova no Centre Pompidou, ok?

E, aaai, do professor que marcar prova nesses dias.

Não existe prova em dia de jogo do Brasil.

Logo, não existe prova em dia de FLIP. Quem dirá no capítulo final de uma Isabel Allende.

Regras são regras no país da desordem.

E, tenho certeza, Hassen não só concordaria como abriria um sorriso.

- Esso mí gusta, Mariana.

E, aos espertinhos, não. Não contei pra ele que em terras tupiniquins casados beijam solteiras e assim por diante.

Leis francesas, ele jamais diria um ‘oui’.