segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Ou não

Ou não

Roupas imigrantes, guarda roupa flutuante. Na década de noventa essa assim, roupa de inverno era roupa de inverno. Roupa de verão era roupa de verão e era preciso fazer conexão. Ou baldeação, como diz minha vó.

Terminava o verão e lá se iam as saias, vestidos e blusinhas lavados especialmente para o Dia Mundial da Troca de Prateleiras para cima da cama. Depois os casacos, fusôs (aquelas calças de lã justérrimas que nos aproximavam das minhocas, lembra?), blusões, toucas e luvas coloridas para a máquina de lavar. Eu ficava sentada impaciente na cama ou assistia e zilhonésima reprise do Castelo enquanto a mamis dava indicações, empolgadíssima, para a empregada da vez.

- Tira todas as roupas de inverno e põe para lavar.

- Passa um pano nessas prateleiras.

- Agora coloca as roupas de verão lá no alto.

- Depois tu traz as de inverno e coloca aqui, bem na frente, tá?

- Tá.

Resumo da ópera. Quando era inverno se usava roupas para o frio que ficavam nas prateleiras mais próximas da altura do dono enquanto as peças fresquinhas descansavam no alto do armário. Chegava o calor e invertia-se a função. Na mudança de estação o primeiro passo era “baixar” as roupas.

***

Meu armário deixou de ser flutuante há tempos. Primeiro porque não tenho empregada nem paciência. Mas, mais importante, porque agora as estações é que são flutuantes. Canso de sair com uma pashmina (aquelas mantas compridas e fininhas que vendem a preço de banana no mercado das pulgas de Madrid) e um óculos escuro na mesma bolsa de verão. Nos momentos “queria ter nascido na España” ainda me atrevo a carregar um leque junto. Só pra fazer charme e ficar com dor no braço, confesso. No inverno preciso colocar uma blusinha apresentável por baixo de toda a roupa porque o ar-condicionado esquenta tudo. No calorão, gela até eu precisar duma pashmina ou dum casaco.

Esses tempos, quando escrevia uma materinha de clima em que precisava explicar uma mudança brusca e atípica na temperatura escrevi algo como: será preciso baixar as roupas do armário. Ai, como queria que aquilo fosse publicado no jornal! Aposto que muitas pessoas se identificariam com o processo de baldeação. Ou não. Ninguém mais baixa nada de armário nenhum nem sente saudades das roupas. Lembro de morrer de saudade duma calça jeans na praia ou de uma sandália rasteira no meio de agosto. Hoje as roupas ficam misturadas o ano todo, flutuando naquela muvuca em que sempre se perde o que se precisa. Talvez, meio como a gente nesse mundo estranho. Flutuando numa muvuca, vira e mexe perdemos o que tanto buscamos.

Mariana sem lei

Isso aqui já foi um lugar de sonho, de idealismo e de trabalho. Espécie de jornalismo sem lei, o Rúcula agora é a Mariana sem lei. Sem regras ou exigências, só escrevo por aqui o que bem entendo. E é assim que fico bem.

Achei pertinente avisar.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Um buraco

Não quero escrever uma crônica mulherzinha. Nem um parágrafo de mulher incompreendida. Muito menos um desafabo de blog cor de rosa com cheiro de morango. Não é nada disso.Não vou culpar minha vó, que nem queimou sutiã, por meus problemas contemporâneos, se é que são problemas (seriam verdades?).Também não vou dizer onde quero chegar ou de onde saí. A questão não é o que temos e o que queremos ter. Ou o que deixamos de querer. O contrassenso* cava o buraco.


...Continua. Ou não.


*De acordo com a ABL, estranho assim, com dois esses.


terça-feira, 19 de outubro de 2010

Obrigada por ter me abandonado nesse dia, rinite

Começar um texto dizendo que eu estava atrasada é um retrocesso, uma redundância, pra não dizer coisa pior. Eu vivo atrasada, pra minha sorte ou azar. Mas o fato é que eu estava mesmo saindo atrasada do banho para um compromisso que já não lembro qual é.

Arranquei a toalha rosa do box, me sequei voando e joguei a mão no desodorante que fez um psiiiii desanimado.

Vazio.

Sim, a Lei de Murphy é algo super presente na minha vida.

Pois lá fui eu tentar encontrar um desodorante novo na minha costumeira bagunça, vulgo balcão da pia. No meio duma sacola amarela de freeshop, estava ele. Arranquei-o feliz do submundo da desordem e puxei a tampa.

O tsiiiiiiiiill saiu com força da lata branca e junto dele veio o bairro gótico e um prato de tapas. Callamares bem sequinhas, por favor. Uma taça de sangría e um monte de amigos heteronacionais. Senti o sono que movia minhas pálpebras na melhor aula de espanhol sob o sorriso de Sarah, a professora. E então eu jogava volei em Barceloneta e eram mais de dez horas da noite. Veio o zunido do metrô e meu quarto pequeno com travesseiro alto. A lomba para chegar até em casa, o calor e uma sensação inédita. Barcelona era inédita para mim e eu pra ela. E nós nos amávamos assim. Todos os dias. Até o dia que revivi tudo em dois minutos dentro do meu banheiro porto-alegrense.

Saborear o aroma do desodorante que eu usava na Catalunya só perde para o borbulhar do arroz com banha da minha vó.

domingo, 17 de outubro de 2010

Devaneio - Gisele

Em um boteco entranhado no bairro Gótico, uma brasileira e americana dividem a mesma mesa.

Enquanto eu admirava meu bocadillo salivando, Elisabeth me encarou séria.

-Mariana?

-Que?

Chegaram as patatas bravas. Largo o bocadillo e espeto uma como um apaixonado que encontra a amada.

- A Gisele tá mesmo grávida?

Adoro esse sabor quente e picante escorregando pela minha garganta.

- Que tu disse mesmo Elisabeth? – já mirando outra.

- Se a Gisele tá grávida.

-Gisele? - franzo o cenho.

Meu cérebro deu uma, duas, três voltas. Devo estar anêmica por culpa da ausência de proteína bovina, só pode.

- Bündchen, Mar-i-ana. Ela tá grávida?

Socorro, senhor. Me proteja dessas cabeças americanas.

- Ih, Elisabeth. Ela tá mais perto de ti que de mim, hein, pode ter certeza. Não faço a mínima ideia.

Aos bocadillos, por favor.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

O maior dos devaneios

Sobre “A gente é feito pra acabar”, o show do Marcelo Jeneci

A melhor definição deve ser dizer apenas que perdi a voz. Esqueci das palavras. Emudeci. E quem me conhece sabe que eu falo, e muito. Não sei se fui arrebatada ou levei uma porrada. Talvez seja algo semelhante a um grande porre. Ainda estou embriagada. Gosto disso, preciso disso. Cada melodia era uma gota de álcool e eu queria mais. Exigia, sugava, chorava. Tal qual uma álcoolatra. Sem culpa. Ainda assim tremia, arrepiava, nadava na bebida. Paz e medo. Desejo e repulsa. Sonho, tristeza, a vida real. Tudo assim, no mesmo copo. Que garçom malcriado. Atirou tudo na mesa sem pedir licença. Será que suporto? Sou forte assim? Sei não. Outra maré. Melodia, melancolia e, então, a felicidade. O sangue corria de outra forma. Lento, lustroso, como bem entendia, naquele mar infinito. Ainda duvido do encaixe. Não sei se eu tinha espaço para tanto. Não sei ser álcoolatra. Mas para que mesmo espaço? A gente é feito pra acabar.


segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Devaneio - O cara perfeito

O cara perfeito

Em que lugar excêntrico andava minha cabeça, como se ela pousasse por muito tempo no corriqueiro, quando acreditei ser prudente estudar pensadores. Pensadores econômicos. Pessoas que deviam sonhar com cifras e acordar com percentagens na cabeça. Por que razão imaginei que eu, Mariana, aquela comprida, deveria ter uma professora cujo maior ídolo se chama Ricardo. Se fosse o Paulo Ricardo seria até mais interessante. Ele usa jaqueta de couro e tem passe livre no Big Brother. Mas, não. O ídolo da professora loira que tem problemas nas cordas vocais, tadinha, é o David Ricardo.

Não, não tentei fazer uma frase de efeito. Dizer que o ídolo da vida de uma pessoa é o David Ricardo não faz uouu, eu sei. Se fosse o Capitão Nascimento ou o Victor & Léo (uma dupla = uma pessoa) valeria mais. Ninguém sabe quem é David Ricaaaaardo. E quem sabe quem é não imagina o economista escocês como norteador dos sonhos de ninguém.

Mas ele permeia os sonhos dela.

Tanto que ela repete efusivamente isso em toda aula. Inclusive antes, no meio e durante a chamada. Por que raios estava eu naquele auditório? Onde já se viu estudar agápé. Sim, agápé é como se chama História do Pensamento Econômico no prédio da economia. Simples, H-P-E ou agápé, mais uma pra lista infinita de créditos necessários para se vestir uma toga. Maldita hora. Maldita cadeira. Malditos pensadores. Maldito ordenamento. Malditos porquês. Maldita chamada. Malditos homens...

- Pedro Perfeito.

Zupt, ergui a cabeça e virei para o colega do lado. Precisava me certificar. Num lugar onde o Ricaaaaardo é ídolo e a Teoria das Nações (oi?) é leitura de férias, tudo pode acontecer. Mas o menino loiro assentiu com a cabeça e cochichou: ele não veio hoje.

Deus é pai e é lindo ver uma quase-jornalista encontrando um porquê. Bendita seja a hora em que o insano desejo jornalístico de encontrar razões para tudo e todos foi concebido e entrei naquele auditório.

P-E-R-F-E-I-T-O, Pedro.

Quem foi mesmo que disse que jamais mudaria de nome quando casasse?