Isso aqui já foi um lugar de sonho, de idealismo e de trabalho. Espécie de jornalismo sem lei, o Rúcula agora é a Mariana sem lei. Sem regras ou exigências, só escrevo por aqui o que bem entendo. E é assim que fico bem.
Achei pertinente avisar.
Isso aqui já foi um lugar de sonho, de idealismo e de trabalho. Espécie de jornalismo sem lei, o Rúcula agora é a Mariana sem lei. Sem regras ou exigências, só escrevo por aqui o que bem entendo. E é assim que fico bem.
Achei pertinente avisar.
Não quero escrever uma crônica mulherzinha. Nem um parágrafo de mulher incompreendida. Muito menos um desafabo de blog cor de rosa com cheiro de morango. Não é nada disso.Não vou culpar minha vó, que nem queimou sutiã, por meus problemas contemporâneos, se é que são problemas (seriam verdades?).Também não vou dizer onde quero chegar ou de onde saí. A questão não é o que temos e o que queremos ter. Ou o que deixamos de querer. O contrassenso* cava o buraco.
...Continua. Ou não.
*De acordo com a ABL, estranho assim, com dois esses.
Começar um texto dizendo que eu estava atrasada é um retrocesso, uma redundância, pra não dizer coisa pior. Eu vivo atrasada, pra minha sorte ou azar. Mas o fato é que eu estava mesmo saindo atrasada do banho para um compromisso que já não lembro qual é.
Arranquei a toalha rosa do box, me sequei voando e joguei a mão no desodorante que fez um psiiiii desanimado.
Vazio.
Sim, a Lei de Murphy é algo super presente na minha vida.
Pois lá fui eu tentar encontrar um desodorante novo na minha costumeira bagunça, vulgo balcão da pia. No meio duma sacola amarela de freeshop, estava ele. Arranquei-o feliz do submundo da desordem e puxei a tampa.
O tsiiiiiiiiill saiu com força da lata branca e junto dele veio o bairro gótico e um prato de tapas. Callamares bem sequinhas, por favor. Uma taça de sangría e um monte de amigos heteronacionais. Senti o sono que movia minhas pálpebras na melhor aula de espanhol sob o sorriso de Sarah, a professora. E então eu jogava volei em Barceloneta e eram mais de dez horas da noite. Veio o zunido do metrô e meu quarto pequeno com travesseiro alto. A lomba para chegar até em casa, o calor e uma sensação inédita. Barcelona era inédita para mim e eu pra ela. E nós nos amávamos assim. Todos os dias. Até o dia que revivi tudo em dois minutos dentro do meu banheiro porto-alegrense.
Saborear o aroma do desodorante que eu usava na Catalunya só perde para o borbulhar do arroz com banha da minha vó.
Enquanto eu admirava meu bocadillo salivando, Elisabeth me encarou séria.
-Mariana?
-Que?
Chegaram as patatas bravas. Largo o bocadillo e espeto uma como um apaixonado que encontra a amada.
- A Gisele tá mesmo grávida?
Adoro esse sabor quente e picante escorregando pela minha garganta.
- Que tu disse mesmo Elisabeth? – já mirando outra.
- Se a Gisele tá grávida.
-Gisele? - franzo o cenho.
Meu cérebro deu uma, duas, três voltas. Devo estar anêmica por culpa da ausência de proteína bovina, só pode.
- Bündchen, Mar-i-ana. Ela tá grávida?
Socorro, senhor. Me proteja dessas cabeças americanas.
- Ih, Elisabeth. Ela tá mais perto de ti que de mim, hein, pode ter certeza. Não faço a mínima ideia.
Aos bocadillos, por favor.
Sobre “A gente é feito pra acabar”, o show do Marcelo Jeneci
A melhor definição deve ser dizer apenas que perdi a voz. Esqueci das palavras. Emudeci. E quem me conhece sabe que eu falo, e muito. Não sei se fui arrebatada ou levei uma porrada. Talvez seja algo semelhante a um grande porre. Ainda estou embriagada. Gosto disso, preciso disso. Cada melodia era uma gota de álcool e eu queria mais. Exigia, sugava, chorava. Tal qual uma álcoolatra. Sem culpa. Ainda assim tremia, arrepiava, nadava na bebida. Paz e medo. Desejo e repulsa. Sonho, tristeza, a vida real. Tudo assim, no mesmo copo. Que garçom malcriado. Atirou tudo na mesa sem pedir licença. Será que suporto? Sou forte assim? Sei não. Outra maré. Melodia, melancolia e, então, a felicidade. O sangue corria de outra forma. Lento, lustroso, como bem entendia, naquele mar infinito. Ainda duvido do encaixe. Não sei se eu tinha espaço para tanto. Não sei ser álcoolatra. Mas para que mesmo espaço? A gente é feito pra acabar.
O cara perfeito
Em que lugar excêntrico andava minha cabeça, como se ela pousasse por muito tempo no corriqueiro, quando acreditei ser prudente estudar pensadores. Pensadores econômicos. Pessoas que deviam sonhar com cifras e acordar com percentagens na cabeça. Por que razão imaginei que eu, Mariana, aquela comprida, deveria ter uma professora cujo maior ídolo se chama Ricardo. Se fosse o Paulo Ricardo seria até mais interessante. Ele usa jaqueta de couro e tem passe livre no Big Brother. Mas, não. O ídolo da professora loira que tem problemas nas cordas vocais, tadinha, é o David Ricardo.
Não, não tentei fazer uma frase de efeito. Dizer que o ídolo da vida de uma pessoa é o David Ricardo não faz uouu, eu sei. Se fosse o Capitão Nascimento ou o Victor & Léo (uma dupla = uma pessoa) valeria mais. Ninguém sabe quem é David Ricaaaaardo. E quem sabe quem é não imagina o economista escocês como norteador dos sonhos de ninguém.
Mas ele permeia os sonhos dela.
Tanto que ela repete efusivamente isso em toda aula. Inclusive antes, no meio e durante a chamada. Por que raios estava eu naquele auditório? Onde já se viu estudar agápé. Sim, agápé é como se chama História do Pensamento Econômico no prédio da economia. Simples, H-P-E ou agápé, mais uma pra lista infinita de créditos necessários para se vestir uma toga. Maldita hora. Maldita cadeira. Malditos pensadores. Maldito ordenamento. Malditos porquês. Maldita chamada. Malditos homens...
- Pedro Perfeito.
Zupt, ergui a cabeça e virei para o colega do lado. Precisava me certificar. Num lugar onde o Ricaaaaardo é ídolo e a Teoria das Nações (oi?) é leitura de férias, tudo pode acontecer. Mas o menino loiro assentiu com a cabeça e cochichou: ele não veio hoje.
Deus é pai e é lindo ver uma quase-jornalista encontrando um porquê. Bendita seja a hora em que o insano desejo jornalístico de encontrar razões para tudo e todos foi concebido e entrei naquele auditório.
P-E-R-F-E-I-T-O, Pedro.
Quem foi mesmo que disse que jamais mudaria de nome quando casasse?
Medo e pânico
Não, não é pânico de assalto. Também não é medo de não conseguir pagar as contas no final do mês ou de não vencer a roda-viva das tarefas. Não tenho receio de viver. Não acho que cidade grande assusta. Não tenho medo de pequenez também.
Mas ando repetindo tanto que, as vezes, até me incomodo:
- Medo e pânico.
Tem gente que me faz grilar meus olhos estreitos. Medo de gente e pânico de suas ações.
Não, não sou misântropa.
Tenho uma leva de queridos naquela lista que entra dentro do peito.
Por isso mesmo me apavoro com quem, por ventura, não recebeu amor, carinho ou luzes.
Nas palavras do seu Alfredo, gosto do que clareia, de gente que faz enxergar em frente. O contrário, é um problema:
- Poucas luzes, Mari.
É, medo e pânico disso aí.
Isso aqui já foi um lugar de sonho, de idealismo e de trabalho. Espécie de jornalismo sem lei, o Rúcula agora é a Mariana sem lei. Sem regras ou exigências, só escrevo por aqui o que bem entendo. E é assim que fico bem.